terça-feira, 28 de abril de 2015

Nada se detêm


Tão maltratadas

As folhas da bananeira

Estraçalhadas ao vento.

 

Uma bandeira templária

Após uma batalha

Tão surrada pelo vento.

 

As bananeiras crescerão

Uma nova bandeira

A ser desfraldada.

sexta-feira, 20 de março de 2015

O mito e a submissão

Os deuses criaram
Os homens
Que criaram o mundo.

Os homens criaram
Os deuses
Que criaram o mundo.

Os homens pensaram ser
Deuses
Que criaram a fé
Que criou a crença
Fruto de toda ilusão
Que dividiu
Que estava unido.

Em nome dos deuses
Se matam homens
Alguns dos deuses
Se acham melhores
Querem submissão
De seus criados
Os homens querem submissão
De outros homens
Que resignados cedem
Criou neste momento
A dominação.


A eternidade

O que pode ser a morte
Senão uma esperança
De que o dia torne-se
Noite.

À noite repousamos
O corpo dilacerado
De uma batalha
Que há vencedores
Tão arrogantes
De uma certeza.

Os perdedores tão raivosos
De terem perdido.

A noite fechamos os olhos
Machucados de tanta luz
E no total silêncio
Ouvimos
O som do universo
Pulsando.

A morte é metáfora
Diante da eternidade
Tão distante da finitude
Humana
Uma bolha de vapor
A se espalhar

Na poeira cósmica.

O rio desta margem

Às margens do Rio Sanzu
As crianças sem pais brincam
Montanhas de pedra levantam
Surgem os demônios vermelhos
Brandindo bastões de ferro
Bastões batidos nas montanhas
Que se desmancham em pedras
Margeando o Rio Sanzu.

As crianças choram
Ninguém se intromete
As montanhas derrubadas
Às margens do Rio Sanzu
Os demônios brandem
Bastões de ferro
Mostram seus dentes caninos
Olhos saltados e negros.

Surge Jizô
Brandindo um cajado das seis argolas
Os demônios vermelhos se vão.

Jizô acalma as crianças
Ergue de novo as montanhas
De pedra.
Jizô se vai
Até o retorno de novo
Dos demônios vermelhos
Brandindo bastões de ferro...



Enfim chovia

Quando cheguei chovia
Chovia naquela cidade
Onde retorno às vezes
Onde meus amigos dormem
Em meu sono profundo.

Ando por caminhos que
Não reconheço mais
Caminhos que nunca existiram
Senão na vaga lembrança
Sem proveito algum.

O que me faz retornar
A um lugar tão distanciado
Que até os fantasmas desapareceram
Pelas ruas que outrora
Ainda viviam.

Uma indiferença apenas
Percorre-me as veias
Livres de sensações estranhas
De tentar agarrar nuvens.

Mas ainda assim
Hei de retornar
Até quando o sentido algum
Vencer todas as minhas
Resistências.

Quando cheguei chovia

Chovia naquela cidade...

Chá verde

Uma xícara de chá
Suave paladar
Suave amargor
Quente a estalar
Os dentes.

Uma xícara de chá
Tão verde suave
Suave amargor.

Uma xícara de chá
De sabor intenso
Suave amargor
Quente a estraçalhar
O coração.

Uma xícara de vida
Tão intensa e vivida
Neste exato momento
Suave perfume
Chá nas papilas.






Desfiladeiro das Termópilas

Os Trezentos de Esparta
Trezentos são os escudos
Trezentos são as espadas
Sem medo da morte
A morte recebida no peito
Aberto a varar a tarde.

As flechas caíram
Em intermitente chuva
Escureceu
Veio a noite por instantes.

As andorinhas deixaram
De voar
Os lobos deixaram
De uivar
E veio o silêncio
Por todo o desfiladeiro
Derradeiro silêncio
Em que não havia mais
Nenhum sofrimento.

Os Trezentos de Esparta
Morreram em pé
Em colunas
Escudos levantados
Sem poder deter
As pontas de ferro
Rabeiras de penas de ganso
Milhares de flechas
Zumbindo no ar
As cordas vibrando
Os arcos vergados
Dos braços dos persas.

Sem cantar vitória
Milhares de persas
Deixaram Termópilas.

O canto do poeta exalta
Os Trezentos de Esparta
Que nunca morrerão.


domingo, 30 de junho de 2013

Perdido na cidade

As manhãs de inverno
são profundas
nas ruas curvas
conduzindo almas
para lugar algum.

E no fundo da alma
os viajantes perdidos
não possuem bússolas
num mar sem vento.

Numa procura em vão
até o esquecimento
os amigos se foram.
Vieram outros
conversaram asneiras
carregadas pelo vento.
Também estes
se foram.


Os pastos azuis

Carneirinhos que
pastam
num pasto infinitamente
azul
não se cansam
jamais
em viver

em nossos olhos.

Lavadores de calçada

Até quando dormem
enquanto outros trabalham
a lavar calçadas.
Mendigos sem
pressa alguma
continuam a sonhar.


O músico

A esquina da manhã
toca saxofone.
Uma balada qualquer
que todos ouvem

onde ninguém para.

Sem se importar

Quem cuida
da velha sinagoga
descascada
maltratada
senão o vento
o vento a acariciar
o rosto cheio
de rugas
da senhora
esquecida

numa esquina.

Os abandonados

O que esconde a
névoa fria
sobre a couraça escura
dos carros?

Será a poeira
instalada.
Será a ferrugem
a corroer.
Será a maquilagem
a esconder
as rugas formadas

após os cinquenta?

Os corvos de Zuioji

Aqueles corvos
grasnando
ao entardecer.

As tardes escurecendo
no Mosteiro Zuioji
apenas o tempo passava
sem nunca ter
passado realmente.

Dos imensos pinheiros
espetando espinhos
no céu
eram os corvos
que anunciavam.
Corvos que nunca vi
que grasnavam
no fundo do bosque
em alguma parte

de mim.

A vida vivida

Alguém disse um
dia
“viver para quê
se vida é diversão
sofrer para quê”.

Se temos uma única
vida
a vida vivida agora
se pensarmos
deixamos de viver
se pensarmos
estaremos no passado
estaremos no futuro
estaremos em qualquer
lugar

fora de lugar.

Navegantes do tempo

Estas lembranças
surgem da fumaça
das manhãs de inverno.

Chegam navegando
em barcos fantasmas
na correnteza ao contrário.

Chegam por instantes
sem nada trazer de novo
sem utilidade alguma
além de um canto
fora de moda
uma bebedeira do passado
que deixou de ter
sentido.
Como que a vida
tivesse um sentido?


A poeira cósmica

Para quê limpar
a mesa
se a poeira assentada
parece ter achado
longa morada.

Restos de cinzas
do incensário
que limpei.

Poeira cósmica
que sempre existiu
no mesmo lugar
sem se incomodar
com o canto do sabiá
com a voz das mulheres
do andar de baixo
jogando conversa fora.
Poucos são os autos
cujos motores ligados
avançam para qualquer lugar.

Se penetram em meus ouvidos
deixo entrar
e sair por outro lado.
Que me importa se são
vermelhos
se são de lata
matéria plástica.

O mundo acontece

neste instante.

O cão de lado

Ladeira abaixo descia
um homem conduzindo
um cão
um cão de lado
ladeando o homem
de chapéu
o homem trazia
a manhã em seus olhos
num choro contido
o cão trazia
o mundo inteiro
em patas pesadas enormes
em silêncio
desciam
sem saber direito

quem conduzia quem?

De passagem

Quando o outono passa
pelos vidros embaçados
passa
solitário caminhante.

Passa ligeiro
o vento cortante
nas folhas duras
da palmeira.

Perdido entre palavras
perdeu tempo suficiente
de viver.
Foi-se a vida
em instantes.
Passou a juventude
os sonhos passaram
a uva passa passou

e foi-se o tempo.

Lamentos da terra

Em vozes desencontradas
a noite se faz
numa mesa de bar
todas as nuances
que vem do norte
que vem do sul
em frases anunciadas
alteradas
soando como sussurro
algumas de lamento
de saudade até
até mesmo de desespero
em terras estrangeiras
baixando a cada instante
a poeira daqueles sonhos
antes sonhados.

A alegria somente

a de antes.